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    O MARTÍRIO DE SANTO ALBANO E SEUS COMPANHEIROS

    Durante as perseguições, um dos mais ilustres daqueles que sofreram morte pela fé foi Santo Albano(1), do qual Pater Fortunatus, no livro que escreveu em louvor das Virgens, falando no grande número de mártires que foram mandados ao céu por ela de toda a parte do mundo, diz


    Albanum egregium faecunda Brittannia profert
    (Albano, santo, a fecunda Bretanha gerou)

     Era ainda um Pagão, quando os Imperadores cruéis primeiro publicaram seus editos contra os Cristãos, e quando recebeu um clérigo em fuga de seus perseguidores em sua casa e deu-lhe asilo. Tendo observado que este convidado gastava dias e noites inteiros em preces e vigílias infindas, sentiu-se ele mesmo num repente inspirado pela graça de Deus, e começou a imitar tão glorioso exemplo de fé e piedade, e sendo pouco a pouco instruído por suas admoestações salutares, renegando a escuridão da idolatria, tornou-se Cristão com toda sinceridade de seu coração. E, tendo exercido sua hospitalidade para com o sobredito clérigo, por alguns dias, uma notícia chegou aos ouvidos do ímpio príncipe, de que o confessor de Cristo, a quem a glória do martírio não havia sido ainda concedida, estava oculto na casa de Albano: e sobre ela, ele comandou alguns soldados para realizar uma completa busca. Quando chegaram à sua casa, Santo Albano apresentou-se ele mesmo imediatamente, vestido com os trajes que costumava usar seu instrutor. Então sucedeu que o Juiz, no momento em que Albano foi conduzido diante dele, estava postado ante o altar, e oferecendo sacrifícios às Almas. E, vendo Albano, irando-se já com a sua intenção, de entregar-se livremente aos soldados, e correndo o risco de ser condenado à morte, ordenou-lhe que se prostrasse ante os ídolos de Demônios, ante os quais se achava, dizendo, "Porque escolheste esconder um rebelde e sacrílego, ao invés de entregá-lo aos soldados, para que sofresse o castigo a ele destinado, por desprezar e blasfemar contra os deuses - tu sofrerás todos os suplícios que seriam inflingidos nele, se recusares cumprir os deveres de nossa religião".

    Mas Santo Albano, que tinha antes voluntariamente professado ser Cristão aos perseguidores da fé, não foi em nada intimidado pelas imprecações do príncipe; mas, estando armado com a armadura da contenda espiritual, calmamente lhe falou, que jamais obedeceria a seus comandos. "Então", disse o juiz, "de que família ou descendência és?" "Que vos interessa", replicou Albano, "saber de que família provenho? Mas se vos apetece conhecer a verdade de minha religião, que seja revelada a vós, pois sou agora um Cristão, e uso meu tempo na prática dos deveres Cristãos". "Como te chamas?" bradou o juiz, "diga imediatamente". "Sou chamado Albano por meus pais," ele respondeu, "e sirvo e adoro sempre o Deus vivo e verdadeiro, que criou todas as coisas". Então o juiz, num rompante, disse, "Se pretendes gozar da felicidade da vida eterna, oferece já o sacrifício aos grandes deuses". Ao que Albano respondeu, "Esses sacrifícios que ofereceis aos demônios, nada podem garantir aos suplicantes, nem outorgar efeito às petições; ao contrário, quem quer que sacrifique a esses ídolos terá as penas eternas do inferno como recompensa". O juiz, ouvindo-o dizer tais palavras, exasperou-se até a fúria. Então ordenou que o santo confessor de Deus fosse açoitado pelos carrascos, imaginando que o látego abalaria aquela constância de coração que meras palavras não puderam afetar. Mas ele suportou grandes tormentos por Nosso Senhor, não somente com paciência, mas com alegria.

    Quando o juiz percebeu que ele não seria dobrado por torturas, nem renegaria a fé de Cristo, sentenciou que lhe decapitassem. Sendo levado à execução, chegaram a um rio, que se dividia naquele lugar onde havia de sofrer por um contraforte e areia, e ali a torrente passava rápida. Ali viu uma grande multidão de pessoas de ambos os sexos, de todas as idades e classes, que certamente se haviam juntado por inspiração divina, para servir o bendito confessor e mártir; e haviam tomado de tal forma a ponte no rio, como para torná-la quase impossível de a passarem, ele e os outros, naquela tarde. Quase todo o povo da cidade estava lá para assistir à execução, e o juiz, que lá ficara, quedou-se sem nenhum servo.

    Santo Albano, doutra parte, cuja mente estava cheia do desejo ardente de abraçar com rapidez o seu martírio, aproximou-se do rio, e erguendo os olhos para o céu, endereçou sua prece ao Todo-Poderoso; e viu, - oh espanto! -, a água recuar incontinenti, e deixar do rio o leito seco, para que o cruzassem. O carrasco, que o deveria degolar com os demais, observando este prodígio, apressou-se para alcançá-lo no local da execução; e, sendo movido por divina inspiração, jogou no solo a espada brasonada que trazia, e prostrou-se a seus pés, implorando que pudesse antes sofrer morte, a seu lado ou em seu lugar, que ser obrigado a tirar a vida de homem tão santo. Enquanto ele de um algoz fizera um irmão na verdadeira fé, e os demais executores hesitando em recolher a espada do chão, o venerável confessor de Deus subiu a um monte com todo o povo. Este lugar aprazível ficava a meio quilômetro do rio, era embelezado com grande variedade de flores, ou antes quase delas coberto; não era um lugar acidentado nem muito escarpado, mas seu conjunto era nivelado por natureza, como o mar quando está calmo: cuja aparência formosa e agradável parecia torná-lo próprio e digno de ser adornado e santificado pelo sangue do mártir. Quando Santo Albano alcançou o cume do monte, rogou a Deus que lhe desse de beber; e imediatamente, uma fonte borbulhou e surgiu a seus pés, com seu curso definido; assim para que todos percebessem que o rio antes obedecera ao mártir. Pois não se poderia supor que ele pediria por água no topo da colina, tendo passado pelo rio abaixo, a não ser se ele estivesse convencido de que seria útil para a glória de Deus que assim procedesse. Aquele rio, de todo modo, tendo se sujeitado à devoção do mártir, e tendo cumprido o serviço que ele impusera, retornou, e continuou a correr como antes em seu curso natural.

    Aqui, assim, este valoroso mártir, sendo decapitado, recebeu a coroa da vida que Deus prometeu aos que O amam. Mas ao carrasco, que foi tão mau embebendo suas mãos sacrílegas no sangue sagrado do mártir, não foi permitido alegrar-se com sua morte; pois seus olhos saltaram ao chão no exato instante em que caía a cabeça do mártir. Ao mesmo tempo foi decapitado lá o soldado que, antes, pela inspiração divina, tinha se recusado a executar a sentença sobre o mártir - e a seu respeito é evidente que, mesmo não tendo sido batizado na pia batismal, foi sim purificado ao derramar seu próprio sangue, e feito digno de entrar no reino dos céus. O juiz então, atordoado com a novidade de tantos milagres celestes, ordenou que a perseguição cessasse já, passando então a honrar os santos por sua paciência e constância, e por sofrerem aquela morte de terrores pelos quais havia imaginado derrogá-los de sua adesão à fé Cristã.

    Santo Albano padeceu no dia 20 de junho, perto da cidade de Verulam, doravante, por sua causa, chamada Santo Albano: uma igreja, de construção a mais refinada, e adequada a comemorar seu martírio, foi erigida depois, tão logo a paz retornou à igreja Cristã; neste lugar não cessaram até hoje as curas milagrosas de muitos doentes, e a freqüente ocorrência de maravilhas.

    Ao mesmo tempo padeceram Aaron e Julius, habitantes da cidade de Leicester (ou Caerleon), e muitos outros de ambos os sexos, em outros lugares; que, tendo sido atormentados no potro(2) até que seu membros fossem desconjuntados, e tendo suportado muitas outras crueldades inauditas, entregaram suas almas, depois do conflito terminar, para a alegria da dita cidade.

    NOTAS
    (1) Santo Albano foi um soldado do exército romano estacionado na Bretanha. Detalhes de sua vida são desconhecidos, mas a tradição popular informa que era um bretão. Ele faleceu durante a perseguição do Imperador Deocleciano (304 d.C.), quando tentou proteger o seu Mestre Amphibalus.
    (2) Potro: instrumento de tortura medieval.

    Tradução: Ricardo Frantz
    Revisão: Rev.Pe.Osmar de Carvalho