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    batet

    ADVENTO

    2012

     

     

    CARTA PASTORAL

     

    Caros Irmãos e Irmãs e Cristo:

    Este domingo, a cristandade celebra o começo de um novo Advento, e nós na Igreja Católica Liberal, como uma Igreja Cristã Católica, mas de uma profunda Tradição de Misticismo e Conhecimento que os gregos chamaram com o termo Theo-Sophia, também estaremos observando este tão importante período do Ano Cristão.

    Nesta época de profunda reflexão como um modo interno de correta preparação para os Mistérios de Natal, sempre surge a nossa mente a ideia do Serviço, e esta sempre está associado com o espírito do Advento, porque, Que maior experiência de vida podemos ter que o Serviço? Um de nossos insignes Bispos do passado, Monsenhor + George Arundale, escreveu um lindo pequeno grande trabalho sobre o Serviço, intitulado “O Caminho do Serviço”, em uma parte do dito escrito, ele diz:

    O melhor serviço que pode fazer a alguém é manifestar em seu próprio caráter as qualidades nele ausentes.

    A maneira de pôr a prova o valor de seu serviço cotidiano com relação aos demais, consiste em observar se, diariamente você se sente mais tranqüilo, mais contente, mais feliz e  tolerante.

    O mundo reclama de cada um seu melhor esforço para o bem do serviço; mas jamais  pretenda realizar também o dever que a outro corresponda. Quando tiver feito tudo o que pode, fizeste tudo o que deve.

    O fato de alguém te recusar sua oferta de lhe servir, não deve ser desculpa para que não lhe ofereça posterior ajuda. Quem recusa aceitar auxílios descobrirá, a seu tempo, que é o que tem mais necessidade deles....

    O Caminho do Serviço é um verdadeiro treinamento interno, também da extraordinária capacidade que vamos adquirindo lentamente ir esquecendo-nos de nós mesmos e que nosso pequeno eu, não seja já o centro do mundo, senão ir adquirindo a lenta, mas segura capacidade da vivência profunda de um estado de unidade, que implicitamente o Natal leva com sua mais profunda expressão. Servir a uma causa da vida que nos rodeia é um verdadeiro serviço, profundo e real, que enriquece ao Ser, de uma maneira insuspeita de maiores capacidades.

    Advento é um verdadeiro treinamento reflexivo, que igual a Quaresma na Páscoa, devemos fazer uma analise profunda das intenções internas que temos na vida. O sentido de egoicidade, usualmente manifesta-se em nossas vidas de mil maneiras sutis, e ainda, revestir-se de “espiritualidade”, “trabalho espiritual”, “devo fazer tal serviço espiritual”, etc. Sempre devemos estar muito atentos, de maneira reflexiva, intuitiva e com verdadeiro Discernimento, a primeira qualidade que devemos observar no primeiro Domingo do Advento, como aquela qualidade necessária para começar realmente o verdadeiro caminho espiritual.

    No livro “Aos pés do Mestre”, seu autor, J. Krishnamurti, disse a respeito do Discernimento:

    “Sê verdadeiro na ação; nunca pretendas parecer senão aquilo que és, pois todo fingimento constitui um obstáculo à pura luz da verdade, que deve brilhar através de ti como a luz do Sol através de um vidro transparente.

    Precisas discernir entre o egoísmo e o altruísmo, pois o egoísmo reveste muitas formas e, quando pensas tê-lo morto, finalmente numa delas, surge noutra tão forte como sempre. Porém, gradualmente, o pensamento de auxiliar aos outros te encherá de tal modo, que não haverá lugar nem tempo para pensares em ti mesmo.

    De outra maneira, ainda  deves utilizar  o discernimento:  aprende  a distinguir  a Deus que está em todos e em tudo, por pior que seja a sua aparência exterior. Podes ajudar teu irmão pelo que tens de comum com ele – a Vida Divina. Aprende a despertar nele essa Vida, aprende a invocá-la nele; assim o salvarás do mal.”

    Tomando como reflexão o último parágrafo, “aprende  a distinguir  a Deus que está em todos e em tudo”! Que pensamento tão formindável de reconhecimento de que Deus está em todos os Seres, sejam quem sejam, humanos, animais, vegetais, pedras e muito mais.

    A Drª. Annie Besant, disse em sua obra, Vida Espiritual:

    “O mundo é o pensamento de Deus, a expressão da Mente Divina. Todas as atividades úteis representam formas de Atividade Divina. As rodas do mundo são giradas por Deus, e nós somos apenas Suas mãos que tocam a roda. Todo o trabalho feito no mundo é o trabalho de Deus apenas. Tudo que serve à humanidade e auxilia nas atividades do mundo é visto corretamente como Atividade Divina, e, de modo errado, quando chamado de secular ou profano. O funcionário atrás do balcão e o médico no hospital participam, da mesma maneira, de uma atividade divina como qualquer pregador em sua igreja. Até que isto seja compreendido, o mundo será vulgarizado, e até que possamos ver uma vida em toda parte e tudo nela enraizado, seremos nós a demonstrar uma atitude desesperançosamente profana, cegos à visão beatífica, que é a da vida una em toda parte, e do todo como expressão daquela vida.

    Se é verdade que Ele está em toda parte e em tudo, Ele está tanto no mercado quanto no deserto, tanto no escritório quanto na selva, e é tão facilmente encontrado nas ruas de uma cidade repleta de pessoas como na solidão de um pico de montanha.

    Se não ouvimos a voz de Deus em todas as partes é porque em geral somos surdos, e não porque a voz divina não fale.  É uma fraqueza nossa que a agitação e o alvoroço da vida na cidade nos tornem surdos para a Voz que está sempre falando. Se fôssemos mais fortes, se os nossos ouvidos fossem mais aguçados, se fôssemos mais espiritualizados, então poderíamos encontrar a Vida Divina tão prontamente na agitação de uma avenida em uma grande cidade, como na cena mais bela que a Natureza jamais apresentou, na solidão da montanha ou na magia do céu da meia-noite. Este é o primeiro ponto a ser compreendido - que não encontramos porque nossos olhos estão cegos.”

    Que forma tão bela e expressiva de apresentarmos a Deus em Sua Imanência e Transcendência, um dos pilares da Doutrina Católica Liberal!

    Há um desafio sem precedentes ante toda a humanidade – A guerra, a aquisição de tecnologia armamentista atômica, os ataques ao meio ambiente, a pobreza que assola na África, o problema de aumento populacional – tudo isto, e talvez outras coisas também, ameaçam a humanidade. A maioria das pessoas não se dão conta de que todos estes desafios externos refletem o que encerra no interior do ser humano – vivemos dividindo o mundo, em meu país, minha religião, minha cidade, meus pais, meus filhos. O ódio que se manifesta na guerra é um reflexo do que ocorre em nossas mentes. A pobreza é nossa incapacidade para unirmos com os demais – para compartilhar. O problema atmosférico nasce da ganância de possuir mais e cada vez mais, sem parar. O interno e o externo em nós não é diferente. Os problemas do mundo são o resultado de nossas incapacidades internas de união.

    Portanto, se vemos o Natal como o sentido de União da vida, devemos, talvez, ver o Advento como a preparação a dita Unidade de Existência.

    A pessoa que é realmente espiritual mostra melhor suas qualidades nas coisas ordinárias da vida.

    É a liturgia das semanas do Advento, que nos prepara para a grande Festa do Natal dando voz a essa espera através da Palavra de Deus e seus signos. Recordemos, entre esses sinais do caminho, alguns versículos do capítulo treze da Carta de São Paulo aos Romanos. Escreve o Apóstolo: “é o tempo de despertardes do sono,... A noite vai adiantada e o dia está próximo. Abandonemos, pois, as obras das trevas e revistamo-nos das armas da luz. Caminhemos como de dia, honestamente; não em desordem e na embriaguez; não em contendas e ciúmes”.

    A noite, a experiência noturna com todas suas manifestações, é para São Paulo a expressão do que significa o sono, “estar dormindo”, no ser humano. É a imagem do mundo externo e  submerso na sensação do adquirir, que se funde no material e permanece na constante sensação de viver uma vida vazia sem sentido, sem luz da verdade. No meio do ruído e agitação prefere a forma mais à mão para entorpecer-se.

    Levantar-se do sono, “despertar ao dia e a luz” significa, pelo contrário, abandonar o conformismo que nos envolve, e com a coragem da fé, olhar uma nova luz, com olhos de crianças surpresas, à Deus feito Menino que vem visitarnos. Quer dizer o Deus Interno em cada um e em todos.

    Advento é anúncio de esperança, de um despertar para percorrer novos caminhos. São dias que nos fazem ver que há promessas mais grandes que os manjares, o poder, o ter, a diversão vazia. É uma nova luz que envolve nosso ser de espiritualidade verdadeira, nos renova, e até nos faz mais luminosos, generosos e transparentes para os demais. Até olhamos com nova cara aos necessitados.

    Também devemos ver o “Advento”, como a esperança do porvir, o que se manifestará, o que virá, o verdadeiro Adventum, a clara manifestação de um devir de glória. Quando na Província Eclesiástica da Argentina, estamos por concretizar o sonho de ter uma Sede da Igreja, permanente, seu seminário onde se formarão os futuros clérigos, e um lugar de repouso, meditação e tranquilidade, graças a generosa doação de seu prédio na localidade de Espinillo, Rio Cuarto, Córdoba, que fez à Igreja na Argentina o Padre Enrique Giunta, não posso menos que agradecer ao destino da Igreja da Argentina a felicidade de visionar um futuro de grandeza para ela.

    Vivamos o Advento com simplicidade, vida dedicada, serviço e caminhemos para o Natal com alegria.

    Que o Senhor abençoe a todos.

    Advento do Senhor, de 2012.

    Miguel Angel Batet

    Bispo Ordinário da Província Argentina

    Bispo Comissário para as Províncias do Brasil e Uruguai